19 de outubro de 2019
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coluna Econômica

A economia brasileira, a crise na Argentina e o ministro especialista em engolir moscas

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 19 de outubro de 2019
trabalho divulgado na sexta-feira no Blog do Ibre, as pesquisadoras Luana Miranda e Mayara Santiago, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), mostram que a economia brasileira tem muito a perder com a crise Argentina.

Reza o velho dito popular que em boca fechada não entra mosca. Pois o ministro favorito dos mercados no Brasil tem se especializado, nas últimas semanas, em engolir moscas. Afora ataques misóginos, gratuitos e extremamente deselegantes, o ministro “engole-moscas” decidiu que a Argentina não tem a menor importância quando se trata de avaliar as perspectivas de crescimento da economia brasileira. “Desde quando o Brasil precisa da Argentina para crescer?”, disparou ele num evento em São Paulo no mês passado, quando questionado sobre os efeitos da crise no país vizinho sobre o País. O desprezo refletia, na verdade, falta de conhecimento, incapacidade de trabalhar com relações complexas na área econômica e menosprezo pelos dados, numa arrogância típica de economistas que dedicam suas vidas a multiplicar a própria fortuna no cassino financeiro.

Pois o ministro “engole-moscas” acaba de ser desautorizado pelo trabalho desenvolvido por duas jovens economistas, estas sim preocupadas com o que os dados têm a dizer a respeito da crise que voltou a martirizar a Argentina desde o ano passado. Num trabalho divulgado na sexta-feira no Blog do Ibre, as pesquisadoras Luana Miranda e Mayara Santiago, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), mostram que sim, a economia brasileira não só tem muito a perder como vem perdendo desde que nosso vizinho iniciou seu mergulho por volta de meados do ano passado.

Os impactos começam pelas exportações, especialmente concentradas em manufaturas, peças e acessórios para o setor de manufaturas, e vão além, alcançando a atividade industrial em seu conjunto, o comércio protagonizado por empresas do setor industrial, o setor de transportes, a arrecadação de impostos e, claro, o Produto Interno Bruto (PIB) aqui dentro. Paulo Guedes, o “engole-moscas”, perdeu mais uma preciosa oportunidade de manter-se calado.

Efeitos em cadeia

Luana, mestre em economia pela FGV, com especialização em macroeconometria, e Mayara, formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e mestrando em economia pela mesma FGV, construíram um modelo que permite inferir quanto a economia brasileira teria crescido não fosse atingida pela crise no país vizinho. Esse modelo considera a evolução dos volumes exportados pelo Brasil para a Argentina e da taxa de câmbio real entre os dois países. As pesquisadoras alimentaram seu modelo econométrico com aquelas variáveis e identificaram qual a parcela do crescimento da indústria brasileira de transformação não poderia ser explicada pelo comércio internacional com a Argentina.Além disso, para projetar os impactos esperados para o terceiro e quarto trimestres deste ano, estimaram o crescimento esperado para os volumes das exportações para a Argentina tomando como base o cenário desenhado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para a demanda doméstica naquele país. Os resultados mostram efeitos em cadeia sobre a indústria brasileira, criando novas dificuldades para uma economia que não tem conseguido deslanchar quase três anos após o fim da recessão.

Balanço

·   No ano passado, conforme os cálculos de Luana e Mayara, o valor adicionado da indústria de transformação poderia ter crescido 2,2% ou cerca de 0,9 pontos de porcentagem a mais do que o resultado de fato registrado pelo setor (1,3%).

·   Para este ano, diante de uma projeção de 0,2% feita pelo Ibre mais recentemente, o PIB do setor de transformação teria condições de avançar, em situação normal, algo em torno de 2,1%. O estrago aqui seria, portanto, de 1,9 pontos de porcentagem.

·   “Contudo, para compreendermos o que isso significa em termos de PIB, precisamos avaliar os efeitos secundários da indústria de transformação sobre os demais componentes do PIB pelo lado da oferta, como comércio, transportes e impostos”, ponderam as duas pesquisadoras.

·   Luana e Mayara lembram que a atividade industrial influencia o comércio e os transportes, já que a produção precisa ser vendida e transportada, além de impactar a arrecadação de impostos. Em torno de 60% dos impostos arrecadados, lembram elas, “são provenientes da indústria de transformação”. Muito evidentemente, quanto mais cresce a indústria, maior o avanço das receitas no setor público (e vice-versa).

·   Nessa análise, o comércio perdeu algo como 0,4 pontos de porcentagem em 2018 e tende a crescer neste ano um ponto abaixo do que poderia, sem o “efeito Argentina”. No setor de transportes, o crescimento teria sido 0,3 pontos mais baixo em 2018 e deverá ser 0,8 pontos menor neste ano.

·   No caso dos impostos, analisados aqui sob o ponto de vista das contas nacionais (quer dizer, do PIB), o avanço de 1,4% observado em 2018 poderia ter alcançado 1,8% (0,4 pontos a mais). Para este ano, estima-se elevação de 1,3% ou um ponto a abaixo do crescimento potencial, dadas as condições presentes na economia brasileira atualmente.

Ao fim e ao cabo, o PIB, que variou 1,1% em 2018, poderia ter crescido um tiquinho a mais (1,3% ou 0,2 pontos acima do observado). Para este ano, a diferença tende a ser de 0,5 pontos, com avanço de 1,1% esperado e possibilidade de incremento de 1,6%. 

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