16 de novembro de 2020
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coluna Econômica

Contribuição do agronegócio para o PIB pode ser negativa neste ano

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 16 de novembro de 2020
No acumulado dos sete primeiros meses deste ano, comparado a igual período de 2019, apenas a indústria mantém-se em terreno negativo, com recuo de 0,37% - Foto: Divulgação

Lauro Veiga

A elevação vigorosa dos preços no campo e o aumento nos volumes colhidos, com exceção para o Rio Grande do Sul, onde a seca reduziu a safra deste ano em um quarto, com perdas de quase 9,0 milhões de toneladas de grãos, tenderão a reforçar o faturamento bruto dos produtores, trazendo alguma melhoria nas margens líquidas para os principais produtos. Mas o impacto do agronegócio sobre a formação do Produto Interno Bruto (PIB) tende a ser negativo ou muito limitado. Considerando a mesma metodologia adotada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para aferir o desempenho da economia brasileira como um todo, o PIB do agronegócio acumulava uma retração de 4,69% na comparação entre os primeiros sete meses deste ano e igual período de 2019.

Esse critério considera a evolução do PIB a valores constantes, o que significa dizer que o indicador registra basicamente a variação dos volumes produzidos entre dois períodos distintos, num cálculo desenvolvido pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP,em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Nesse conceito, o tamanho da retração tem encolhido mês a mês, sugerindo melhora relativa em relação aos primeiros meses da pandemia. Até maio, por exemplo, a queda estimada frente aos cinco meses iniciais do ano passado estava em 4,43%, mas o cenário agravou-se desde lá, o que fez o PIB do setor encolher 5,44% no primeiro semestre deste ano. O dado seguinte, contabilizado nos sete meses terminados em julho, mostra uma retração menos intensa, mas ainda dramática.

Menos ruim

Daqui em diante, a depender do ritmo especialmente dos setores de serviços relacionados ao agronegócio e da indústria de base agropecuária, mas drasticamente afetados pela crise, os números do PIB, medido em volume, podem até melhorar, mas a possibilidade de retornarem a níveis positivos parece ainda distante. Ainda entre janeiro e julho, o volume produzido pela indústria do setor acumulava perdas de 8,02% diante do mesmo período de 2019, com tombo de 6,13% para os chamados “agrosserviços”. O setor de insumos apresentava alta de 4,77% e o segmento primário (da fazenda para dentro) avançava a um ritmo de 0,97% (resultado da elevação de 4,15% no setor agrícola, o que compensou a redução de 3,88% acumulada pela pecuária). O comportamento mostra que o setor não ficou exatamente imune à crise sanitária, afetado, nos momentos iniciais, pela paralisação de plantas frigoríficas e de outros setores da indústria agropecuária. Será um dado a mais a complicar as perspectivas para a economia em geral.

Balanço

·   A outra medida adotada pelo Cepea e CNA para avaliar o PIB, na prática, afere o comportamento da renda bruta no agronegócio. Sob essa ótica, o desempenho é amplamente favorável (mas não tem efeitos diretos sobre o PIB tradicionalmente aferido pelo IBGE). A conta neste caso considera a variação dos volumes produzidos e dos preços recebidos pelo conjunto do agronegócio em termos reais.

·   O indicador sinaliza o comportamento da renda real do setor e esta tem crescido fortemente, com alta acumulada de 6,75% até julho. No ano passado, a renda havia sofrido baixa de 3,46%. Conforme o Cepea, o chamado “PIB-renda” tem apresentado variações mensais positivas desde outubro do ano passado e passou pela pandemia quase incólume.

·   Na verdade, a taxa de crescimento mensal, que vinha próxima e até levemente acima de 1,0% até fevereiro, recuou para 0,93% em março e despencou para apenas 0,19% em abril (o que pode ser considerado como uma estagnação virtual). Mas reagiu nos meses seguintes, passando a subir 0,59% em maio, 1,33% em junho e 1,26% em julho.

·   No acumulado dos sete primeiros meses deste ano, comparado a igual período de 2019, apenas a indústria mantém-se em terreno negativo, com recuo de 0,37% (resultado de perdas mensais de 1,35% e de 0,92% em abril e maio respectivamente). Aqui, as maiores perdas estão nas indústrias têxtil e do vestuário, couro e calçados, produtos de madeira, biocombustíveis, conservas de frutas e legumes.

·   Conforme o Cepea, a agroindústria de base agrícola chegou a registrar variação ligeira de 0,12% em julho, mantendo-se em terreno negativo no acumulado até julho, com baixa de 3,92%. “Já a agroindústria de base pecuária, cresceu 1,16% em julho e 12,0% no período de janeiro a julho”, acrescenta relatório do centro de estudos.

·   A renda no segmento de agrosserviços cresce a uma taxa de 6,0% naqueles sete meses, com avanço de 2,40% para os insumos e de 18,46% no setor primário.Nesta última área, a renda no ramo agrícola acumula salto de 24,47% e sobe 8,86% na pecuária.

·   No setor primário agrícola, além de um crescimento de 3,3% esperado para a produção, os preços médios ponderados das culturas acompanhadas pelo Cepea registram um salto de 16,37%. A expectativa do centro de estudos sugere um aumento de 20,21% para o faturamento real do setor neste ano.

·   Na pecuária, foi computada elevação de 12,93% nos preços médios pagos aos produtores até julho e prevê-se recuo anual de 1,52% para a produção. O resultado final tende a ser um incremento de 11,21% no faturamento do setor neste ano.

 

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