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Economia

Desindustrialização atinge drasticamente setores de maior intensidade tecnológica

Postado em: 18-04-2019 as 18h15
Lauro Veiga

O País assiste a um processo continuado de perda da importância da indústria de transformação na economia que vai muito além da crise mais recente, da qual o setor ainda não se recuperou. Foram décadas de políticas macroeconômicas equivocadas, com juros nas nuvens e dólar barato, estimulando a entrada de bens importados, agravada por rodadas de cortes em tarifas aduaneiras sem qualquer planejamento e reciprocidade com países concorrentes, e ausência de políticas industriais que permitissem ao País avançar na diversificação e sofisticação de seu parque industrial.

Há anos o País vive um processo de desindustrialização, que atinge mais severamente o coração mesmo da nova “revolução industrial”, vale dizer, os setores de alta tecnologia, incluindo bens de informática e eletrônicos. O conceito de manufatura avançada, desenhado inicialmente pelo governo alemão no começo da década, também conhecido como Indústria 4.0, pressupõe doses maciças de digitalização, integração entre sistemas com elevada capacidade de processamento, com algoritmos que permitem a tomada de decisões sem a interferência humana, armazenamento de dados em nuvem, além de sistemas de automação que possibilitam a comunicação entre máquinas, acoplando ainda a internet industrial das coisas.

A indústria brasileira não está apenas atrasada na corrida rumo ao novo paradigma como vem perdendo relevância nos setores que mais serão exigidos ao longo do processo de mudança, conforme detalha o estudo “Desindustrialização setorial e estagnação de longo prazo da manufatura brasileira”, dos economistas Paulo Morceiro (USP) e Joaquim J. M. Guilhoto (OCDE), compilado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). O trabalho mostra que a desindustrialização em curso é não só “prematura” como “indesejada para os setores intensivos em tecnologia e conhecimento”.

Retrocesso

Esse processo, de resto não observado nas economias mais relevantes do planeta, foi iniciado quando o Brasil apresentava nível de renda per capita muito inferior ao que os economistas chamam de padrão internacional (em geral, quando a renda atinge em torno US$ 20 mil por habitante, em valores que consideram a paridade de poder de compra de cada moeda nacional). “Isso é grave, pois os setores tecnológicos deveriam estar crescendo para atingir o pico no PIB (Produto Interno Bruto) em níveis elevados de renda per capita, do qual o Brasil ainda está distante”, anota a compilação feita pelo Iedi. E acrescenta: “a desindustrialização em curso já atingiu, prematuramente, o núcleo dinâmico em termos de tecnologia, crescimento econômico e mão de obra qualificada da indústria brasileira. Em conjunto, os setores de maior intensidade tecnológica perderam 40% de peso no PIB desde 1980”.

Balanço

·   A recessão mais recente apenas aprofundou o problema, nota o Iedi, relembrando que a fatia da indústria no PIB caiu ao nível mais baixo desde 1947 (quer dizer, numa fase quase “pré-industrial”). A participação do setor desabou para 11,3% em 2018, “quase metade dos 20% registrados em 1976”.

·   “Temos passado por um processo de regressão industrial dos mais intensos do mundo, o que tem resultado em baixo crescimento econômico e atrasos tecnológicos importantes”, registra o instituto.Isso não significa que a indústria parou decrescer e sim que tem crescido muito pouco, demonstrando baixíssimo dinamismo.

·   No mundo, o produto do setor de manufatura cresceu, em termos reais, em torno de 175% entre 1980 e 2015. Sem a China, o avanço atingiu 124%. No Brasil, o crescimento ficou limitado a 28%.

·   A participação do valor adicionado pela indústria global no PIB cresceu pouco mais de 10% no período (de 16,3% para 18,0%). No Brasil, ela encolheu 42% (de 23,0% para 13,3%), levando em consideração ainda a paridade de poder de compra, o que permite uma comparação mais precisa entre os países. Excluída a China, essa fatia ficou praticamente estável (saindo de 16,2% para 16,1%).Como diz o Iedi, “somos um ponto fora da curva”.

Setores de elevada intensidade tecnológica não chegaram a regredir, mas também não avançaram, embora ocupem uma fatia muito baixa em termos internacionais. A indústria de bens de informática e eletrônicos responde por apenas 0,5% do PIB, três vezes menos que nos Estados Unidos. “Este quadro sugere grandes dificuldades para acompanharmos as transformações da era digital”, afirma o Iedi. 

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