Segunda-feira, 23 de novembro de 2020
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Economia

Nem só o dólar explica a alta nos preços dos principais grãos

Postado em: 23-10-2020 às 06h00
Exportações cresceram e abastecimento doméstico diminuiu, causando alta nos preços dos produtos - Foto: Reprodução

Lauro Veiga Filho 

O impacto da desvalorização do real frente ao dólar explica apenas parcialmente a alta experimentada pelos principais grãos nos últimos meses, indicando a interferência de outros fatores naqueles mercados, a exemplo das exportações crescentes e da ausência total de políticas de segurança alimentar, que poderiam preservar o abastecimento doméstico e evitar pressões mais intensas sobre os índices de inflação. O milho e o algodão, no entanto, parecem surgir como exceções. No primeiro caso, porque as exportações mergulharam em queda neste ano, enquanto o País colhia a maior safra de toda a série histórica. O algodão, ao contrário, experimenta forte alta nas vendas externas, mas os preços recebidos pelos produtores acompanharam a uma certa distância a alta das cotações internacionais, quando convertidas em reais (ou seja, já considerando a alta do dólar no período).

As exportações de milho acumulavam, entre janeiro e setembro deste ano, uma redução de 29,2% frente ao mesmo período do ano passado, baixando de 28,437 milhões para quase 20,122 milhões toneladas, em torno de 8,315 milhões de toneladas a menos. A produção brasileira subiu de 100,04 milhões para 102,52 milhões de toneladas, nas estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento e Preços (Conab), num acréscimo de 2,472 milhões de toneladas (2,5% a mais). Somados os dois números, o mercado interno deveria receber uma oferta adicional de 10,787 milhões de toneladas.

Ainda de acordo com os dados da Conab, o consumo ao longo do ciclo agrícola 2019/20 estava estimado ao redor de 68,663 milhões de toneladas, perto de 3,705 milhões a mais do que no ano safra 2018/19 (64,958 milhões de toneladas), numa variação de 5,7%. Em tese, ainda que os dados da Conab considerem o ano agrícola (julho de um ano a junho do seguinte), a “sobra” de milho no mercado cobriria com folga todo o aumento projetado para o consumo interno. Os estoques finais de milho na safra encerrada em junho estavam estimados em 10,430 milhões de toneladas, o segundo mais baixo desde meados da década, suficiente para atender ao mercado durante pouco mais de 55 dias.

Acima do equilíbrio

Os preços médios recebidos pelos produtores de milho em Lucas do Rio Verde (MT) e Londrina (PR), conforme a companhia, saltaram 112,8% e 85,7% nos últimos 12 meses, até a segunda semana de outubro. O índice da Esalq para o milho subiu 66,6% no mesmo período. A alta do dólar, que atingiu 35,0% na média em igual intervalo, e o aumento nos preços do grão na Bolsa de Chicago fizeram as cotações internacionais subirem em torno de 36,4% (quando calculadas em reais), ou seja, menos de um terço do salto observado em Mato Grosso. Obviamente, eventual aquecimento da demanda por milho, internamente, impulsionada pelas exportações de carnes e pelo uso crescente do cereal na produção de etanol, poderia até dar alguma sustentação aos preços, que alcançam níveis históricos, aproximando-se de R$ 56,00 por saca nas principais regiões produtoras, lembrando que o chamado “preço de equilíbrio”, em Mato Grosso, estaria por volta de R$ 23,00 a saca.

Balanço

·   Colocado de outra forma, os preços médios ao produtor estariam numa faixa 2,4 vezes maior do que o valor mínimo por saca suficiente para equilibrar receitas e custos. Como os produtores já haviam vendido, desde agosto, mais de 90% da produção esperada, poucos teriam conseguido alcançar os preços mais altos na venda de sua produção. Mas o cenário é muito positivo para o campo, já que a produção foi elevada, a produtividade foi boa e os preços médios igualmente favoreceram os produtores.

·   O grande problema está na pressão crescente sobre os custos da pecuária, principalmente no caso de frangos e suínos, e dos impactos sobre o custo de vida das famílias.

·   As exportações de algodão em fibra, incluindo os embarques de roupas a base da pluma, saltaram 48,2% na comparação entre os nove primeiros meses deste ano e o mesmo período do ano passado, saindo de 831,80 mil para 1,233 milhão de toneladas (401,1 mil toneladas a mais). A produção registrou variação de 5,5%, o que representou um acréscimo de 153,0 mil toneladas de pluma.

·   A Conab prevê uma retração de 18,6% no consumo doméstico, para 570,0 mil toneladas, o que elevaria os estoques finais para 1,930 milhão de toneladas (o mais alto da série recente, iniciada em 2013/14). Mas a estimativa da companhia para as exportações supunha uma variação em torno de 19% (diante dos 48% acumulados até setembro).

·   Os preços pagos aos produtores em Mato Grosso e na Bahia subiram quase 40,0% e em torno de 32,0%, respectivamente, nos últimos 12 meses até a segunda semana deste mês. As cotações em Nova York, convertidas em reais, subiram mais fortemente, com alta acumulada de 44,4%.

·   O descasamento entre preços internacionais e domésticos foi mais destacado nos casos da soja e do arroz. Considerados os preços registrados na Tailândia e nos Estados Unidos, já considerando o impacto da alta do dólar, o mercado experimentou avanços em torno de 56% a 58% em 12 meses, sustentados pelas restrições impostas às exportações pelos principais produtores asiáticos, incluindo a própria Tailândia, preservando o abastecimento interno. Mas o preço do arroz saltou 126,0% no Rio Grande do Sul no mesmo intervalo, atingindo R$ 102,40 a saca de 50 quilos na segunda semana deste mês.

·   As exportações de arroz aumentaram 64,7% até setembro (de 733,27 mil para 1,208 milhão de toneladas, ou seja, 474,66 mil toneladas a mais). A produção brasileira aumentou em 699,0 mil toneladas, para 11,183 milhões de toneladas.

·   As vendas externas de soja aumentaram em 18,408 milhões de toneladas (mais 30,3%) no acumulado de janeiro e setembro, atingindo 79,179 milhões de toneladas (63,4% da safra recorde colhida neste ano, na faixa de 124,85 milhões de toneladas). Os preços aos produtores aumentaram 105,0% em Sorriso, perto de duas vezes mais do que a alta de 51,8% registrada na Bolsa de Chicago (já considerando a conversão das cotações em dólar para real).

 

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